quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Alguém disse

"Que cases. Que te juntes numa cerimónia branca e imaculada, rodeada de família e amigos. Que tenhas filhos depois. Só depois. Esperam de ti, mulher, que saibas, no mínimo, estrelar ovos e que gostes de homens. Mas que sejas fiel. Ordeira e arrumada. Limpa e asseada. E que dês de mamar. Que sejas incansável na função de mãe, sem lágrimas ou dúvidas. Mãe que é mãe nunca se arrepende de nada. Nem de os ter. Nem do que faz. Nunca questiona os conselhos dos mais velhos.

Esperam de ti isso e mais. Que qualquer sensação de fraqueza é para erradicar do peito e da cabeça. Esperam que se te dizem que deves dar peito até aos dois anos, é para cumprir. Que se não sentes qualquer gozo nisso, és menos mãe. Menos capaz. Menos mulher. Esperam de ti um parto normal. Gaja que é gaja, tem parto vaginal. As outras são umas “meninas”. Esperam de ti a boçalidade da pré-história.



Esperam que tenhas os filhos sempre limpos e que lhes dês banho todos os dias após uma refeição sem fritos ou salsichas. Esperam que a roupa do homem com quem casas, porque é suposto gostares de homens, esteja passada a ferro. Que se não podes, contrata alguém.
Esperam que não haja vincos na tua camisola quando vais trabalhar todos os dias nem nódoas de ranho ou papa. Esperam que tires um curso. Que sejas “alguma coisa” mas que consigas ter a casa num brinco, sem pingo de pó ou brinquedos fora do sítio.
Esperam que sejas magra. Atlética. Que corras todos os dias. Ou dia sim, dia não, vá. De depilação feita e unhas coloridas. Que faças bolos ao sábado. E que não tenhas as raízes do cabelo por fazer. Esperam que te comportes bem e que nunca bebas um copo a mais para não caíres em figuras ridículas. Que nunca sejas daquelas que urina entre dois carros, no meio do Cais do Sodré.
Esperam isso. Esperam mais. Que nunca adormeças maquilhada porque sujas a fronha da almofada. E que não te separes. Aguenta. É suposto aguentares porque tudo dá trabalho na vida. Por isso, é suposto esforçares-te. Pelos filhos. Por ti, não. Não carece. Por ti, não. E pela imagem. A imagem. E o que gastaram naquele casamento sumptuoso! Não. Aguenta, se faz favor. Pelos teus pais e pelos teus filhos. Esmera-te. É capaz de ser culpa tua.
Esperam isso de ti. E não convém falhares. Esperam que tenhas sempre a louça na máquina e a roupa estendida. Que a cama esteja sempre feita. Todos os dias. Esperam de ti pouco rasgo. Se pensares demasiado, vais questionar demasiado. Ser curiosa ainda vá. Reflectir é evitável. Não esperam que sejas uma grande intelectual ou que fumes charutos ou que gostes de brandy. Vais beber licor de café ou vinho do porto e fumar qualquer coisa com sabor a mentol. Esperam de ti a dignidade. Que aceites o assédio como um galanteio. Esperam que uses saltos altos todos os dias e que uses um perfume que enche o elevador. Esperam que sejas isto. E mais. Só não esperam que sejas feliz.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Eu amo-te, sabes?

Eu amo-te, sabes? Mas também te odeio. Sim, odeio mesmo.
Odeio que penses que sabes tudo sobre mim. Não sabes, eu não sei... Odeio as tuas certezas construídas sobe não sei bem o quê. Odeio o que pensas de mim (às vezes). Odeio que digas que me conhecesses como se fosses eu e depois me confrontes como palavras que não me pertencem. Como ações que não são minhas. Se soubesses tudo sobre mim não o farias, estou certa? Não, só tu estás sempre certo... sim. É como se achasses que sabes o dia e a hora em que vais morrer. Não sabes! Ninguém sabe! Nem podia... como é que podes viver com a linha do fim à tua frente? Não podes... ninguém é de ninguém e ninguém sabe tanto de si como o nosso próprio alguém.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Alguém disse

"Somos as coisas que moram dentro de nós..."

in Facebook Andreia Tristão

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Alguém disse

"E se já for tarde demais esquece o relógio e anda.
Um abraço teu chega sempre a horas."

in Prometo Falhar, Pedro Chagas Freitas

Coisas que eu sei

Sabes, mais uma vez sei de coisas que tu não sabes que eu sei. Talvez nunca vás saber ou talvez um dia eu ganhe coragem de mandar a toalha ao chão e te conte tudo o que sei, tudo o que tenho aqui enroladinho. Dentro do peito e que muitas vezes quis saltar para fora e eu não deixei... Sabes aquela sensação na barriga quando comes depressa demais? Ou quando bebes água muito fresca? É parecida... Tu sabes que não o deves fazer mas fases... e depois lamentas-te como se não estivesses à espera que a sensação fosse assim, como se não fosse igual às outras vezes. Como se já não a conhecesses.

O que sinto é isso, sinto que agora sei aquilo que pensava que sabia. Só que agora sei mesmo. E não é bom. Saber que sei e saber que tu sabes e mesmo assim sabermos que ambos me estão a enganar. Tu a mim. Eu a mim. É, às vezes engano-me a mim própria... é mais fácil (quem sabe), menos doloroso e menos explicativo. É, adivinhar que sabemos alguma coisa dá muito trabalho a explicar e nós mulheres temos o dom de fingir que acreditamos nas coisas, sabias? É a maneira mais fácil de não mostrarmos as nossas fraquezas... Eu não quis mostrar as minhas. Não quero. Não agora.

Amanhã não sei... tudo o que tenho aqui enroladinho pode desenrolar sem eu conseguir pará-lo... e nesse dia eu não sei o que vai acontecer. Nem tu. Nesse dia ambos vamos perceber que afinal as mulheres são mais fortes do que imaginam e que quando dizemos que achamos alguma coisa já temos a certeza dela. Disso não duvides. Eu nunca duvidei. Às vezes duvido de mim e da forma como encontro aquilo que não quero... mesmo que não faça por isso... mesmo que naquela momento não queira. O momento impõe-se sobre aquilo que quero (ou não quero) encontrar.

Tenho sido a descobridora daquilo que me magoa. Daquilo que me fere e faz chorar. Tenho sido a descobridora ocasional daquilo que é rotina (aparentemente) e só eu sei o que esses rasgos de Pedro Álvares Cabral me tem arrancado tudo por dentro. Devagarinho.

Descobrir coisas também é torturar-se... devagarinho para não doer tanto de uma só vez. Mas é mentira, dói igual de todas as vezes. Dói muito sempre. Tanto. Dói tanto quando queres que te digam a verdade sem tu dizeres que a sabes... e ouvires promessas de amor encobertas em palavras vazias que sabes que não significam nada para a tua cabeça mas tudo para o teu coração. Envolves-te naquilo que tentar evitar mas o amor fala mais alto... e mais uma vez finges não saber o que sabes.
E volta tudo ao início e voltas a prometer a ti própria baixinho... que da próxima vez é que é, que próxima vez mais gritar ao mundo tudo o que sabes. Imaginas as reacções. Sonhas. Mas no fundo sabes que quando esse dia chegar, o amor vai voltar a falar mais alto... mas o amor que é só teu. Não dele. Nem vosso.

sábado, 14 de junho de 2014

Alguém disse

"Ela - Tu assumes demasiado facilmente que tens uma namorada.
Eu - Demasiado facilmente?!
Ela - Sim. Eu perguntei-te se tinhas namorada e disseste logo que sim.
Eu - Querias que eu dissesse o quê?!
Ela - Não queria que dissesses nada, mas a maior parte dos homens, quando diz que tem, diz também que está numa fase má e que a coisa deve estar para acabar.
Eu - Eu não estou para acabar...
Ela - Mas se o disseres sempre abres a porta a um caso extraconjugal.
Eu - Ah! Por um lado não quero abrir essa porta, por outro não acredito que as mulheres sejam parvas ao ponto de irem nessa conversa da relação que está muito mal e prestes a acabar.
Ela - É claro que não são parvas a esse ponto, mas às vezes fingem que sim..."

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Partidas que (me) partem

Vó, partiste sem dizer nada. Nem avisaste! Não nos disseste que ias para perto do teu amor. Precisavas mesmo ir já? Ele não podia esperar? E nós? Achas que já não precisávamos de ti? Achas?!

E agora? Quem é que me vai trazer língua da sogra da Padaria da Dona Graça? Quem é que me vai trazer rebuçados ao dia 10 de cada mês? Quem é que me vai descascar as romãs em Outubro? A quem é que eu vou despentear o cabelo? A quem é que vou trazer as gomas novas que tiver na loja? Quem é que vou chatear por comer laranjas à noite? Com quem é que vou ver a novela? E partilhar as pipocas à meia noite?... com ninguém... É, deixaste-me sem ninguém. Fazes-me tanta falta. Fazes tanta falta cá em casa... nem sabes. Ou melhor, sabes. Eu sei que sabes e por saberes isso é que ainda não consegui perceber porque foste embora assim... nem fomos a Fátima como me tinhas pedido... nem a Viseu visitar os teus sobrinhos!

Tinhas assim tanta pressa de ir? Não podemos fazer nada do que tínhamos combinado. Estava sempre a trabalhar e agora que tenho tempo já não estás aqui para me fazeres companhia. Não é justo. Não foste justa comigo. Nem sabes o que ando a passar desde que te foste embora, nem imaginas as crises que a mãe tem tido, piores que aquelas que ela tinha antes, lembras-te? Mas desta vez são por tua causa e eu acho que já não tenho força para a ajudar... até porque acho que ela não quer a ajuda de ninguém... oh, tu sabes, ela fazia o mesmo contigo! Sabes tão bem, tal como eu.

Mas eu percebo,
tinhas saudades do teu amor. Mas agora sou eu que tenho tuas, 1 mês e 2 dias depois.